Quando trabalhar começa a doer: ansiedade, excesso e esgotamento
- Selma Rodrìgues
- 7 de jan.
- 3 min de leitura
A ansiedade no trabalho raramente aparece de forma abrupta. Ela costuma chegar devagar.

Primeiro, como um aperto no peito antes de uma reunião. Um pensamento insistente que não silencia à noite. Um corpo que acorda cansado mesmo depois de horas de sono. Aos poucos, o que era apenas tensão pontual vai se espalhando pelo dia inteiro. A mente não desliga. O corpo permanece em alerta. E trabalhar, que poderia ser fonte de realização, passa a ser vivido como ameaça.
Não é fraqueza. É o corpo tentando acompanhar exigências que não cessam.
O peso invisível das expectativas

Vivemos em uma cultura que normalizou o excesso. Metas cada vez mais altas, prazos cada vez mais curtos, disponibilidade permanente. A sensação de que nunca é suficiente. De que sempre há algo a melhorar, produzir, entregar.
Byung-Chul Han descreve esse cenário com precisão ao falar da sociedade do cansaço: já não precisamos de um chefe autoritário que nos vigie — nós mesmos nos tornamos nossos maiores cobradores. Exploramos a nós próprios em nome da performance, da eficiência, da ideia de sucesso. E, nesse processo, o limite entre dedicação e autoexploração se perde.
A ansiedade, nesse contexto, não é um desvio individual. Ela é, muitas vezes, um efeito direto de um sistema que exige mais do que o corpo e a mente conseguem sustentar.
Quando a ansiedade deixa de impulsionar e começa a adoecer
Sentir ansiedade diante de desafios é humano. Em pequenas doses, ela pode até mobilizar, estimular, ajudar na preparação. O problema surge quando essa tensão deixa de ser episódica e passa a ser o estado padrão.
Quando o corpo não relaxa mais. Quando a mente gira em círculos. Quando o trabalho invade o descanso, o lazer, as relações. Nesse ponto, a ansiedade deixa de ser resposta e se torna condição. E o risco de esgotamento aumenta.
Estudos sobre a Síndrome de Burnout mostram que a exposição prolongada ao estresse ocupacional pode levar à exaustão emocional profunda, à despersonalização e à perda de sentido no trabalho. Não é apenas cansaço — é um colapso progressivo da capacidade de sustentar demandas que não cessam (Alencar & Gomes, 2022).
O trabalho como fonte de adoecimento — e também de cuidado
O trabalho não é, por si só, um vilão. Ele pode ser lugar de construção de identidade, pertencimento, propósito. Quando há reconhecimento, limites claros, possibilidade de descanso e relações minimamente saudáveis, trabalhar pode sustentar a vida.
O problema aparece quando o desequilíbrio se instala.
Quando tudo depende do desempenho. Quando errar se torna inaceitável. Quando o medo de falhar ocupa mais espaço do que o desejo de criar. Nessas condições, o trabalho deixa de ser espaço de troca e passa a ser campo permanente de ameaça. O corpo responde. A mente sinaliza. A ansiedade surge como pedido de socorro.
Quando a ansiedade está passando dos limites

Alguns sinais indicam que algo precisa ser olhado com mais cuidado:
· Preocupações excessivas e persistentes
· Dificuldade para relaxar, mesmo fora do trabalho
· Insônia ou sono não reparador
· Taquicardia, sudorese, falta de ar
· Medo intenso de avaliações, reuniões ou interações profissionais
· Queda de concentração e produtividade
· Uso de substâncias ou comportamentos compulsivos para aliviar a tensão
Esses sinais não falam de fraqueza.Falam de um sistema interno sobrecarregado.
A ansiedade não é frescura. É linguagem do corpo e da mente dizendo: assim não dá mais.
Olhar para a ansiedade é um gesto de cuidado
Buscar ajuda não é desistir. É interromper um ciclo que pode levar ao adoecimento mais grave. Psicoterapia ajuda a compreender o que está sendo exigido demais, o que está sendo silenciado, o que precisa de limite. Em alguns casos, acompanhamento médico, mudanças no estilo de vida e reorganização da rotina são fundamentais.
Algumas empresas já começam a reconhecer a importância da saúde mental, oferecendo programas de apoio e bem-estar. Se esse recurso existe, utilizá-lo não é privilégio — é direito.
Reconstruir não é produzir mais — é viver melhor

Cuidar da ansiedade no trabalho não significa eliminar desafios, mas restaurar o equilíbrio. Significa reconhecer limites, resgatar pausas, reconstruir sentidos. Significa, muitas vezes, questionar modelos que adoecem mais do que sustentam.
A boa notícia é que a ansiedade pode ser cuidada. Com apoio, escuta e estratégias adequadas, é possível voltar a trabalhar sem que o corpo pague um preço tão alto.
Você não precisa enfrentar isso sozinho.E cuidar da sua saúde mental não é luxo — é condição para continuar existindo de forma inteira.
Referências
ALENCAR, B. E. R.; GOMES, R. C. N. T. Compreendendo o adoecimento mental pelo esgotamento profissional da Síndrome de Burnout. Brazilian Journal of Health Review, v. 5, n. 1, 2022.
HAN, B.-C. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.



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