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Quando ser você mesmo parece arriscado demais

  • Foto do escritor: Selma Rodrìgues
    Selma Rodrìgues
  • 14 de jan.
  • 3 min de leitura

Ninguém nasce fingindo.A adaptação vem depois.


No início da vida, existir é um gesto espontâneo. Um choro que emerge, um movimento sem cálculo, uma expressão que não pede permissão. Mas nem sempre o ambiente consegue acolher essa espontaneidade. E a criança percebe — muito antes de saber nomear — que algumas partes suas são acolhidas, enquanto outras geram tensão, rejeição ou indiferença.


É aí que algo começa a se organizar por dentro.



Para Winnicott, quando o ambiente não é suficientemente bom, o sujeito aprende a sobreviver se moldando. Surge um jeito de ser que responde ao que o outro espera, que evita rupturas, que preserva o vínculo a qualquer custo. Esse funcionamento adaptativo não é patológico em si — ele é, antes de tudo, uma solução. Uma forma de continuar existindo quando ser espontâneo parecia arriscado demais.


Assim, nasce o que Winnicott chamou de falso self: não como mentira, mas como proteção. Enquanto isso, o verdadeiro self — aquele núcleo vivo, criativo, espontâneo — permanece resguardado. Não desaparece, mas se recolhe. Espera.

 

Quando a adaptação vira cansaço


O problema não é aprender a se adaptar. O problema é esquecer que isso foi uma estratégia — você não é só isso.


Com o passar do tempo, o falso self pode ocupar quase todo o espaço psíquico. A pessoa funciona, produz, corresponde, sustenta papéis. É vista como competente, forte, madura. Mas algo começa a pesar. Um cansaço que não passa com descanso. Uma sensação difusa de vazio. A dificuldade de sentir prazer real, não performado.


É comum que, nesse ponto, surja a pergunta silenciosa:“Por que, mesmo com tudo aparentemente em ordem, eu me sinto tão distante de mim?”


O falso self é eficaz, mas não é vivo. Ele mantém a continuidade externa da vida, mas empobrece a experiência interna. Quando ele domina, a pessoa existe para o mundo — mas não se sente existindo por dentro.


E o verdadeiro self, sufocado por anos de adaptação, não grita. Ele se manifesta em pequenos sinais: angústia sem nome, irritação sem causa clara, tristeza que não encontra palavras.

Às vezes, em crises.

Às vezes, em um desejo súbito de romper, de sumir, de começar de novo.


O medo de existir sem máscara



Retomar o contato com o verdadeiro self não é simples — e nem confortável. Porque aquilo que foi protegido também foi, por muito tempo, interditado.


Ser autêntico assusta quando, lá atrás, a autenticidade não encontrou sustentação. Há um medo profundo de que, ao baixar a guarda, algo desmorone: o amor do outro, o pertencimento, a própria identidade construída.


Por isso, muitas pessoas confundem o falso self com quem são. Afinal, foi ele que garantiu reconhecimento, vínculos, estabilidade. Abrir mão dessa organização pode parecer arriscado demais. Como se existir sem essa armadura fosse sinônimo de abandono.


Mas o trabalho clínico mostra algo importante: o verdadeiro self não exige ruptura brusca. Ele não pede exposição radical. Ele pede ambiente. Um espaço onde possa surgir aos poucos, sem ser invadido, corrigido ou exigido.


É por isso que a psicoterapia, quando suficientemente boa, não força autenticidade. Ela oferece continência para que o sujeito possa, pela primeira vez, experimentar ser sem se adaptar o tempo todo.


Reconstruir não é virar outra pessoa — é voltar



O encontro com o verdadeiro self não cria alguém novo. Ele devolve algo antigo.


É um processo lento, feito de pequenos gestos: perceber o que se sente antes de responder, sustentar um “não” sem se justificar demais, reconhecer limites, permitir-se desejar sem culpa. Não se trata de abandonar o falso self — ele continua sendo um recurso. Mas de libertá-lo da função de comandante.


Quando o verdadeiro self encontra espaço, algo muda na qualidade da vida. As relações ficam menos exaustivas. As escolhas mais alinhadas. O corpo respira de outro jeito.


Não é uma vida sem medo, mas uma vida mais verdadeira.


E talvez seja isso que Winnicott quis dizer quando falou de saúde psíquica: não é a ausência de sofrimento, mas a possibilidade de existir a partir de si, e não apenas correspondendo às expectativas das outras pessoas.


Ser você mesmo não é um ato grandioso.É um retorno silencioso. E, muitas vezes, profundamente reparador.

 

 
 
 

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