top of page

Cuidar da mente é uma forma de permanecer inteiro no mundo

  • Foto do escritor: Selma Rodrìgues
    Selma Rodrìgues
  • 6 de jan.
  • 4 min de leitura

Cuidar da saúde mental não é um privilégio reservado a quem tem tempo, dinheiro ou uma vida “organizada”. É uma necessidade básica. É o que sustenta o gesto simples de levantar da cama, atravessar o dia, sustentar vínculos, continuar existindo sem ser engolido pelo ruído do mundo.


Ainda assim, há dias em que a mente pesa. O corpo aperta. O pensamento se torna árido. Tudo parece exigir mais do que temos para dar. Isso não é fracasso. É condição humana. Ninguém atravessa a vida sem ser atravessado por ela.

O problema começa quando acreditamos que sofrer é algo a ser evitado a qualquer custo. Não é. O sofrimento faz parte. A questão não é eliminá-lo, mas aprender a atravessá-lo sem se perder de si.


Assim como o corpo precisa de alimento, descanso e movimento, a mente também precisa de espaço para respirar. Precisa de cuidado, de afeto e, muitas vezes, de ajuda. Ignorar isso cobra um preço alto.


A mente não adoece sozinha


A saúde mental não nasce do nada. Ela se constrói — e se fragiliza — ao longo da vida.Somos atravessados por histórias de infância, relações familiares, perdas, traumas, rotinas exaustivas, exigências silenciosas. Tudo isso vai deixando marcas que não aparecem no espelho, mas organizam profundamente a forma como sentimos, reagimos e nos defendemos.


Pesquisas mostram que vínculos afetivos consistentes funcionam como uma espécie de amortecedor psíquico. Uma rede de apoio — amigos, família, comunidade — protege contra o adoecimento emocional.Mas nem sempre essa rede existe. Ou existe de forma precária.


E quando o mundo parece frio, hostil ou indiferente, a psicoterapia pode se tornar um espaço fundamental. Um lugar onde as dores não precisam ser explicadas, justificadas ou minimizadas. Um lugar onde é possível, aos poucos, reorganizar o que foi quebrado e dar voz ao que foi silenciado.


Quem pode sofrer — e de que maneira?


O sofrimento é sempre vivido de forma singular. Nenhuma dor é igual à outra.Ainda assim, ele não nasce isolado: é atravessado por expectativas culturais, normas sociais e formas históricas de reconhecimento — ou de negação.


Durante muito tempo, certos modos de sentir foram autorizados e outros interditados. Algumas pessoas aprenderam cedo que chorar enfraquece, que expor fragilidade é perigoso, que pedir ajuda ameaça a própria dignidade. Outras foram convocadas a sustentar o mundo, a cuidar de tudo e de todos, a seguir funcionando mesmo quando o corpo e a mente já pediam pausa.


Essas exigências não se distribuem ao acaso. Elas se organizam em torno de ideias rígidas sobre força, autonomia, sensibilidade e desempenho, que atravessam identidades, expressões de gênero e modos de existir. Quando o sofrimento não encontra espaço para ser reconhecido, ele tende a se deslocar: vira silêncio, tensão constante, adoecimento, exaustão.


O resultado é conhecido: emoções sufocadas, corpos sobrecarregados, vidas que seguem funcionando à custa de um alto preço psíquico.

Talvez seja hora de desorganizar essa lógica.Permitir o choro onde antes havia contenção.Autorizar o descanso onde só havia exigência.Reconhecer que cada pessoa sente à sua maneira — e que não estar bem também é um modo legítimo de estar no mundo.


Corpo, cérebro e história


A saúde mental também tem um componente biológico. O cérebro é um sistema complexo de conexões químicas e elétricas que influencia diretamente nossas emoções, nosso humor e nossa capacidade de lidar com o estresse.


Em alguns casos, desequilíbrios neuroquímicos aumentam a vulnerabilidade à ansiedade, à depressão e a outros sofrimentos psíquicos. A genética pode entrar nesse jogo — mas predisposição não é destino. O ambiente, os vínculos, os hábitos e o acesso ao cuidado fazem toda a diferença.


Reduzir o sofrimento mental e a “falta de força de vontade” é uma violência simbólica. Assim como reduzi-lo apenas ao cérebro também é. A saúde mental acontece no entrelaçamento entre corpo, história e mundo.



Cultura também adoece — e também pode curar


Vivemos imersos em uma cultura que dita regras invisíveis sobre sucesso, felicidade e desempenho. Em muitos contextos, falar sobre sofrimento psíquico ainda é tabu. Pedir ajuda é visto como fraqueza. O silêncio vira norma.


Mas a cultura não é apenas fonte de adoecimento. Ela também pode ser cura. Comunidades que acolhem, que legitimam a dor do outro, que permitem a vulnerabilidade, criam ambientes mais saudáveis emocionalmente.


Quando falamos de racismo, machismo e outras formas de opressão, o impacto psíquico se aprofunda. Ser constantemente desvalorizado, silenciado ou invisibilizado deixa marcas que não são individuais — são estruturais.Enquanto o mundo não muda, cuidar da saúde mental se torna um ato político e de resistência.


Ninguém precisa carregar isso sozinho


A vida acontece na mente. É ali que moram os sonhos, os medos, os afetos, as escolhas. Se existe algo que ninguém deveria carregar sozinho, é o peso da própria cabeça.


Pedir ajuda não é sinal de fraqueza.Oferecer escuta não é pouco. Cuidar da saúde mental não é um caminho solitário — é um movimento coletivo, feito de afeto, responsabilidade e reconstrução possível.


Se for preciso, peça. Se puder, acolha. Porque seguir inteiro no mundo exige cuidado — e ninguém faz isso sozinho.

 

 
 
 

Comentários


©2023- Por Selma Rodrigues Soares  Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page