Quando amar dói: por que é tão difícil ir embora?
- Selma Rodrìgues
- 6 de jan.
- 4 min de leitura

A dor raramente chega de uma vez.Ela se insinua. Vai ocupando o corpo aos poucos: o cansaço que não passa, o peito apertado, a mente presa às mesmas perguntas. Algo não está bem — você sabe — mas permanece. Ajusta, explica, tenta mais uma vez. Como se insistir pudesse, em algum momento, tornar leve aquilo que já pesa demais.
E então surge o impasse: se dói tanto, por que é tão difícil partir?
Mesmo quando o entorno percebe antes de você, mesmo quando a lucidez aparece em breves momentos, a ideia de ir embora provoca um vazio quase físico. Um medo que não se explica apenas com palavras: e se eu nunca mais encontrar alguém? e se eu estiver desistindo cedo demais? e se eu não souber existir fora dessa relação?
Na teoria, a resposta parece simples. Se um vínculo machuca mais do que sustenta, o caminho seria deixá-lo. Mas a vida psíquica não se organiza por lógica. Ela se organiza por laços, memórias, repetições e medos antigos que seguem operando mesmo quando já não fazem sentido.
O amor que aprendemos a suportar
Desde muito cedo, aprendemos que amar exige sacrifício. Crescemos ouvindo histórias em que o amor verdadeiro precisa doer, resistir, atravessar provações. Sofrer virou sinal de profundidade. Permanecer virou prova de maturidade.
Assim, muitos de nós fomos ensinados a tolerar dores que não cuidam, apenas desgastam. Mas existe um limite silencioso entre atravessar dificuldades e se perder de si. Quando um relacionamento exige que você se cale, se diminua ou se adapte até desaparecer, algo deixou de ser cuidado e passou a ser controle. Nem toda dor transforma. Algumas apenas repetem feridas antigas.
O medo do vazio e a dificuldade de estar só

Estar só assusta — e isso não é fraqueza. A solidão não é vivida da mesma forma por todas as pessoas. Para algumas, é solitude, descanso, pausa, recolhimento. Para outras, se transforma em ameaça, como se algo essencial estivesse prestes a se desfazer.
Winnicott nos ajuda a compreender isso ao afirmar que a capacidade de ficar só não nasce pronta. Ela se constrói muito cedo, quando foi possível estar só na presença de alguém confiável. É essa experiência que permite internalizar uma sensação de continuidade do ser. Quando essa base existe, a ausência do outro não equivale ao desaparecimento de si.
Quando esse processo falha — por ausências, intrusões ou cuidados imprevisíveis — a solidão deixa de ser espaço e vira abandono. O vazio não é apenas a falta do outro; é o medo de não existir sem ele.
Bowlby amplia essa compreensão ao falar dos vínculos de apego inseguro e ambivalente. Nesses casos, a figura de apego nunca foi totalmente segura. A presença acalma apenas parcialmente; a ausência provoca angústia intensa. Forma-se um estado interno de vigilância: o sujeito deseja o vínculo, mas teme perdê-lo; aproxima-se, mas não consegue relaxar.
Na vida adulta, isso reaparece nas relações amorosas. Muitas vezes, não é o amor que prende, mas o pavor de acessar um vazio antigo. O outro funciona como âncora psíquica, como garantia de existência. Separar-se, então, não é apenas perder alguém — é perder uma organização interna que sustentava o sentimento de ser alguém no mundo.
A força das expectativas externas
Há também uma pressão silenciosa para não desistir. Relacionamentos continuam sendo vistos como sinal de sucesso emocional. Permanecer, mesmo adoecendo, costuma ser chamado de resiliência. Partir é frequentemente lido como fracasso, incapacidade ou intolerância à frustração.
Mas nenhuma expectativa social sente o que você sente. Nenhum ideal coletivo carrega o peso que recai sobre o seu corpo. A vida que está em jogo é a sua — e isso muda tudo.
Repetimos o que nos é familiar
Os primeiros vínculos moldam profundamente o que esperamos do amor. Quando crescemos em ambientes marcados por instabilidade, ausência ou exigência excessiva, o sofrimento pode se tornar familiar. Não porque seja desejado, mas porque é conhecido.
O psiquismo tende a repetir aquilo que não pôde ser elaborado. Buscamos no presente relações que ecoam o passado, mesmo quando nos ferem. Reconhecer isso não é culpa — é possibilidade de mudança. Padrões não se rompem com força de vontade. Eles se transformam com consciência, tempo e, muitas vezes, ajuda.
Quando a autoestima se fragiliza
Relações que machucam corroem a autoestima lentamente. Aos poucos, a pessoa passa a acreditar que pede demais, que merece pouco, que o problema está sempre nela. Silencia desejos, tolera o intolerável, molda-se ao outro até não se reconhecer mais.
Mas o amor não deveria ser um lugar de encolhimento. Um vínculo que enfraquece quem você é talvez não seja amor — ou, ao menos, não um amor que é a favor da vida.
Ir embora também é um processo

Sair de uma relação que dói não é apenas terminar. É atravessar luto, medo e desorganização. É reconstruir referências internas. É aprender a sustentar o vazio por um tempo, até que algo novo possa nascer.
Terapia ajuda. Autoconhecimento ajuda. Vínculos que acolhem ajudam. Mas, acima de tudo, ajuda reconhecer que você merece um amor que acolha, acaricie e te faça bem.
Não existem respostas prontas. Existem caminhos possíveis.E, às vezes, o primeiro gesto não é partir — é se perguntar, com honestidade: se essa história fosse um livro, eu gostaria de continuar lendo até o fim? E se eu pudesse reescrever essa história...qual seria?



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