Falar em público não é sobre vencer a timidez
- Selma Rodrìgues
- 6 de jan.
- 3 min de leitura

É sobre aprender a habitar a própria voz
Muitas pessoas acreditam que o maior obstáculo para falar em público é a timidez. Como se apenas os extrovertidos, seguros e expansivos tivessem esse “dom”.Mas essa ideia é enganosa.
A timidez, por si só, não impede ninguém de falar em público. O que costuma paralisar é outra coisa: o medo de ser visto, avaliado e julgado. Medo de falhar diante do olhar do outro. Medo de não estar à altura. Medo de perder o controle do próprio corpo.
Falar em público ativa algo muito primitivo em nós. O corpo entra em estado de alerta: mãos suam, coração acelera, a voz falha, o pensamento embaralha. Não é falta de competência. É o corpo reagindo à exposição.
E aqui está um ponto importante: o medo de falar em público é um dos medos mais comuns que existem. Para muitas pessoas, ele é mais intenso do que o medo da morte. Isso não diz nada sobre ser frágil — diz sobre ser humano.
A voz como instrumento psíquico
A voz não é apenas um som. Ela é um instrumento de presença.É através dela que nos colocamos no mundo, marcamos posição, pedimos espaço, estabelecemos vínculo.
Ainda assim, muita gente vive como se tivesse a voz “guardada”. Pessoas inteligentes, sensíveis, cheias de ideias, mas que se calam. Não porque não tenham o que dizer, mas porque não se sentem autorizadas a dizer.
Falar em público, nesse sentido, não é apenas uma habilidade técnica. É um processo de autorização interna.
Comunicação não nasce pronta: nasce ao ser praticada
Existe um mito bastante cruel: o de que algumas pessoas já nascem sabendo falar bem.Na prática, a comunicação funciona como qualquer outra habilidade complexa — ela se constrói com repetição e experiência.
Aprender a falar em público se parece muito com aprender a dirigir. No começo, tudo exige esforço consciente. Pensar no que dizer, controlar o corpo, organizar o raciocínio. Com o tempo, o corpo aprende. O gesto se torna mais natural. A atenção se amplia.
Não existe atalho.Existe prática constante e consistente.
E isso implica algo simples, porém difícil: aceitar ser iniciante. Aceitar que nem toda fala será brilhante. Que nem toda apresentação será impecável. Que errar faz parte do processo.
Sempre que surge uma oportunidade de falar — uma reunião, uma apresentação pequena, uma conversa em grupo — algo pode ser treinado ali. Se a oportunidade não surge, às vezes é preciso criá-la.
O medo do julgamento
Grande parte da ansiedade ao falar em público nasce da fantasia de que estamos completamente sob controle do olhar do outro. Como se cada erro fosse ampliado, cada hesitação fosse condenada.
Mas o que muitas vezes esquecemos é que o público não está tão focado em nós quanto imaginamos. As pessoas também estão ocupadas com seus próprios pensamentos, inseguranças e expectativas.
Reconhecer isso alivia a ansiedade da situação. Falar deixa de ser uma prova e passa a ser uma troca.

Corpo, voz e presença
Falar bem não é falar bonito. É falar com presença.
Isso envolve:
· Tom de voz vivo, não monótono
· Gestos que acompanham a fala, sem exagero
· Olhar que circula, que inclui
· Linguagem próxima, humana, compreensível
A comunicação oral não segue as mesmas regras da escrita. Por isso, ajuda muito ensaiar em voz alta. Falar diante do espelho. Gravar-se. Ouvir a própria voz sem julgamento excessivo.
Aos poucos, o corpo vai encontrando um ritmo próprio.
Dominar o conteúdo gera segurança
Nada tranquiliza mais do que saber do que se está falando.Quando existe domínio do tema, a fala se organiza com mais fluidez. A confiança não vem da performance, mas do quanto você se conecta ao assunto da sua apresentação.
E aqui entra um recurso poderoso: histórias. As pessoas se conectam com narrativas. Contar uma história — mesmo simples — cria proximidade, atenção e envolvimento.
No fundo, falar em público é conversar com mais pessoas ao mesmo tempo.
Para além da técnica
Aprender a falar em público não é apenas aprender técnicas de oratória.É aprender a suportar a própria visibilidade.
É sair do lugar de quem se protege no silêncio para experimentar o risco de existir em voz alta.
A timidez não precisa desaparecer para isso acontecer.Ela pode, inclusive, caminhar junto.
Falar em público não é deixar de ser quem se é.É encontrar um modo possível de habitar a própria voz no mundo.



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